PESSOAS COMUNS TAMBÉM SÃO ATLETAS

UMA IDEIA PARA MUDAR A FORMA DE EDUCAR

 

UMA IDEIA PARA MUDAR A FORMA DE EDUCAR

POR ROBERTO LELES

Educação é um tema bem difícil de debater, e só quem viveu na pele a responsabilidade de educar, sabe falar sobre como é ficar no olho desse furacão. São tantas coisas que acontecem ao mesmo tempo, que é impossível imaginar uma solução única para a enorme demanda que aparece, cada dia você se depara com um problema novo.

                É loucura apontar um culpado, pois cada escola é uma escola, cada sala é uma sala e cada aluno é um aluno. Além disso cada gestor ou professor escolar também é único, e as vezes o que pode ser um problema para um, não é para o outro. Por exemplo, existem escolas que obrigam os alunos a se juntarem no pátio, para cantar o hino nacional e fazer a oração do Pai Nosso antes de entrar na sala, enquanto outras escolas, não realizam essa “cerimonia”. Ai temos um problema! Pois as escolas que obrigam os alunos a participarem dessa “cerimonia”, enfrentam aqueles que não querem participar, com isso já começam o dia, enfrentando um conflito.

                Educar é uma tarefa delicada, pois o professor precisa passar um conhecimento para alguém que na maioria das vezes não quer receber, com isso os professores dentro da sala de aula, enfrentam mais um conflito, convencer aos alunos a aprenderem algo que eles ainda nem sabem que precisam.

A maior parte dos alunos vivem como se o mundo da escola fosse eterno, alguns realmente acreditam que a vida começa e termina ali, por isso, essa fase da adolescência é tão sofrida para alguns e tão feliz para outros. Pois pensa bem, imagina como é para a gordinha que sofre bullying no ensino médio? Seu universo gira em torno da opinião dos seus amigos da escola, por isso, sua percepção do mundo, é que ela é um fracasso. Enquanto isso, aquele garoto descolado, que é muito popular, festeja o seu sucesso na comunidade escolar, e sua percepção sobre a vida escolar é bem diferente de sua amiga mais cheinha.

A fase escolar é uma das mais complicadas, pois é uma fase de descobertas. Quando se torna adulto, você percebe que a maioria dos seus problemas eram coisas bobas de serem resolvidas. Você também descobre que o fato do seu ensino médio ter sido um sucesso, não quer dizer nada, e da mesma forma se ele foi um fracasso. Aposto que já viu essa história se reverter diversas vezes, da gordinha emagrecer e do bonitão fracassar. Se você é um adulto, sabe dessas coisas, só que eles ainda não, por isso sofrem tanto.

Por isso o professor precisa entender essa situação e ensinar pensando na fase que os alunos estão vivendo. Ninguém aprende obrigado, pois para se transferir um conhecimento, é necessário ter abertura de quem vai recebe-lo. O professor e o gestor escolar, são as pessoas maduras nesse processo. Eles também passaram pela escola e tiveram suas próprias experiências. Por isso são os responsáveis por guiar os alunos nesse caminho, ajudando-os a perceber de que existe um mundo maior lá fora, e que eles precisam se concentrar no futuro, pois o tempo passa rápido e as oportunidades também.

Professores e o gestores escolar eficientes possuem uma característica comum, usam a criatividade para educar, chamam a atenção do aluno e despertam o seu interesse, assim ganham abertura para passar a mensagem. Eles buscam desafiar os alunos para que eles se sintam estimulados a desenvolver suas habilidades. Outra característica importante, é a empatia, eles têm a capacidade de se colocar no lugar do aluno, buscando entender quem é esse sujeito com quem está conversando. Eles procuram informações dos seus alunos, querem saber quem é, de onde vem, o que passa com ele dentro da sala de aula ou em casa, pois entendem que cada um é cada um, e o ambiente externo influencia diretamente nesse processo de educação.

Tentar impor autoridade dentro da sala de aula, geralmente não funciona. Esse perfil de professor autoritário, linha dura, só faz aumentar o conflito e a distância com o aluno, o que piora a situação, pois, uma pequena parte bem barulhenta da sala de aula, adora desafiar quem quer obriga-los a fazer alguma coisa. Com isso o professor passa grande parte da aula gritando, se estressando, enquanto essa turma se diverte as custas dele.

Educar é a arte de engolir sapos, o professor precisa manter a ordem e a classe ao mesmo tempo, não é um trabalho fácil, imagina você lutar sozinho em uma sala de aula, contra quarenta adolescentes, é uma batalha já perdida com certeza. Por isso o professor precisa respirar fundo e não se permitir ser atingindo pelas provocações, pois cada reação a um aluno “bagunceiro”, aumenta sua audiência, e com isso sua força vai aumentando e ele vai se tornando o líder daquela sala.

Uma forma bem eficiente de ganhar a atenção da sala, é estimulando os alunos interessados. Jack Welck, um dos CEOs mais bem sucedidos do mundo, disse que sempre classificava seus liderados em três classes, A,B e C. Ele dizia que o classe A, eram aqueles 10% acelerados da turma, pessoas que não precisavam ser estimuladas, pois se motivavam sozinhas. O classe B, representa 70%, e são pessoas que precisavam de estímulos, de orientações e uma pequena força para trabalhar. E o C, geralmente são 20%, e representam aqueles que não tem nenhum interesse no que está acontecendo. Welck dizia que o risco maior eram os classe B, pois é a classe influenciável, eles podem se misturar tanto com quem é A, como com quem é C, e é ai que está o risco, pois se eles se misturarem com os classe C, o comportamento da turma será igual daqueles que não tem interesse nenhum em colaborar.

O grande problema de professores que não conseguem atrair a atenção da sala, é que eles gastam mais tempo com os alunos classe C, do que com os classe A, e isso desmotiva quem está interessado em participar da aula. Os classe C são realmente irritantes, falam coisas fora de hora apenas para atrapalhar o andamento da matéria, mas, se o professor dar muita atenção para esse grupo, eles vão ganhando popularidade, e ganhando seguidores, geralmente os classe B, que são os altamente influenciáveis. Por esse motivo o professor deve “engolir sapos”, e não deixar que as provocações dos alunos classe C, façam o perder a razão. É uma tarefa complicada, mas necessária, pois se o professor cair na tentação de responder, eles já venceram.

Para conquistar uma turma, a aula deve ser direcionada para os classe A, eles devem ser desafiados a liderar a sala. Os classe A são competitivos, e na posição de liderança conseguem estimular seu grupo a fazer o melhor. Os classe A sendo estimulados, atraem os classe B e consequentemente acuam os classe C, tornando o ambiente da sala de aula muito mais produtivo.

Sou professor de Educação Física desde 2006 (sei que parece uma matéria fácil de lecionar, já que o senso comum acredita que a única coisa que fazemos é chegar na quadra, jogar a bola e deixar que eles “brinquem”. Mas não é bem assim, o conteúdo da Educação Física é extenso, e somos obrigados a passa-los, já que também caem nas provas), demorei um tempo para entender esse sistema, eu também lutava contra aqueles que não queriam nada na aula, e só me desgastava enquanto os alunos se divertiam com minha cara. Foi então que decidi mudar a abordagem, e trazer os alunos interessados para o foco.

Em 2018, fui designado para Escola Estadual Romero de Carvalho, uma escola de bairro de Pedro Leopoldo, lá eles tinham poucos recursos e muitos problemas, mas foi onde desenvolvi junto com outros professores, que também compactuavam com a ideia de estimular os interessados, um sistema de educação que usava jogos como meio de levar as mensagens. Vocês nem imaginam como isso deu certo, acabamos por descobri uma forma muito mais eficiente de ensinar, um método tão bom, que precisa ser compartilhado com a sociedade, e é por isso que gostaria de descrever como fizemos esse projeto nesse texto.

Criamos um projeto chamado JEROC- Jogos Escolares Romero de Carvalho-, um evento que foi construído pelos alunos, do início ao fim. A intenção do projeto era construir algo que tivesse a cara dos alunos e não dos professores ou do Estado, a ideia era dar autonomia para saber do que eles eram capazes.

Dividimos toda escola em quatro equipes, os alunos elegeram os líderes de cada grupo através de uma eleição. Nessa fase eles participaram de palestras sobre política, onde aprenderam como escolher um representante. O objetivo desse momento era ensinar sobre a importância de pesquisar, entender e reconhecer um representante, promovendo uma aula sobre responsabilidade civil. Com isso muitos tiveram a primeira experiência de votar e ser votado. Todo o projeto era organizados pelos alunos considerados os mais responsáveis da escola (E esse era o ponto chave da nossa teoria, dar visibilidade e estimulo aos classe A).

Os alunos foram responsáveis pela criação das regras dos jogos, e orientados a como melhorar a organização, e como dar publicidade ao que estava acontecendo. Houveram disputas de jogos esportivos, dança, matemática e redação. E as equipes eram pontuadas de acordo com as tarefas executadas. E durante todo o projeto várias ideias foram sugerindo, como por exemplo competições de projetos de ciência, cultural, dentre outros. (Uma pena não termos conseguido fazer tudo).

Introduzimos o mundo do empreendedorismo durante o projeto, eles aprenderam a pensar sobre como produzir riqueza, e com isso aumentar os recursos disponíveis do evento. Entenderam como funciona o mercado financeiro, de criar uma oferta em cima de uma demanda. Eles conseguiram atrair a comunidade escolar (Pais, professores, amigos) para os jogos nos sábados letivos, e com isso venderam produtos (pastel e refrigerante) e conseguiram lucrar. Com isso tiveram que aprender a se reunir para tomar de decisões importantes, como grupo, assim ganhando mais uma experiência.

Esse projeto foi capaz de mostrar que existe uma forma mais pratica de colocar as teorias de educação para funcionar, pois permitiu que crianças e adolescentes pudessem viver de forma real como o mundo acontece. Por isso, acredito que valha a pena investir tempo e recursos aperfeiçoando esse método de trabalho, para trazer uma educação mais pratica, voltada para os alunos interessados, estimulando a autonomia e a criatividade do ambiente escolar.  

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