Você já reparou que a
maioria das pessoas competitivas estão sempre isoladas? São do tipo que fazem poucos
amigos e parecem estar tensas o tempo todo.
Há alguns dias acompanhei
uma competição de tênis. Um campeonato simples com pouco mais de vinte atletas,
com uma premiação simbólica (um pequeno troféu para o vencedor levar como
lembrança), sem patrocinadores, sem arbitragem, sem atletas profissionais. O negócio
ali era apenas reunir amigos para se divertir competindo.
O campeonato durou três
dias (um final de semana), foi do tipo mata-mata onde quem perde sai e quem
vence avança. Haviam duas quadras e a opção de duas modalidades - duplas ou
individual - e a intenção era fazer os atletas jogarem o máximo possível para
proporcionar uma experiência de competição para eles.
Na
chegada dos atletas dava pra sentir o clima de competição, e logo de cara já
conseguimos identificar quem estava ali querendo vencer e quem queria apenas
participar. Alguns jogadores entravam brincando, rindo e fazendo piadas,
querendo saber o tempo todo se a cerveja estava gelada, por exemplo. Outros ficavam
calados, concentrados, se alongando, repetindo os gestos mais comuns da
modalidade em forma de aquecimento, e se isolavam para – aparentemente – pensar
no jogo!
Quando
começaram as partidas, os níveis técnicos e táticos foram expostos e os atletas
mais habilidosos superavam os menos habilidosos com facilidade. Houveram jogos
rápidos no início, um ou outro com maior combatividade e que terminavam com o placar
mais apertado. Os perdedores se reuniam em volta da quadra onde estavam
acontecendo os jogos mais interessantes com aqueles atletas já conhecidos para
torcer, comentar e tomarem sua cerveja - a maioria parecia não se importar com
a derrota, mostrando que estavam ali para se divertir e encontrar os amigos.
Outros saiam chateados, ficavam falando sobre os seus erros, pedindo dicas para
o treinador, observando de forma concentrada o jogo daqueles que ainda
continuavam na competição. Alguns discutiam por lances polêmicos, brigando por
cada ponto, e exigiam uma arbitragem para a próxima competição, pois gostariam
que as regras fossem obedecidas. Já outros não ligavam para nada: não queriam
se estressar, o objetivo era a diversão e, em muitos lances duvidosos, davam a
vantagem para o adversário.
Os
dias foram se passando e a competição se afunilando. Quanto mais perto da
decisão, maior o clima de tensão entre os finalistas. Sem brincadeiras e menos
conversas, ninguém queria perder (mas todo mundo sabia que apenas um poderia
ser o campeão). Sabiam que o seu amigo de treino, naquele momento era o seu
adversário e que para ser o campeão seria preciso superá-lo: “É ele ou eu”. Do
lado de fora o pessoal que foi saindo da competição veio assistir, e o que queriam
era ver o circo pegar fogo! Ficavam colocando lenha na fogueira, o negócio
tinha virado festa... Eles queriam ver
os finalistas dando o seu melhor, pois o bom do esporte é a incerteza do
resultado! Um jogo disputado com os dois lados brigando por cada ponto faz a
torcida delirar, e é isso que move o mundo do esportivo: a EMOÇÃO.
Então chegou o dia das finais e, de todos os
que começaram, agora só restaram dois para a decisão. O clima estava pesado, os
finalistas isolados com os seus conselheiros, conversando sobre o jogo,
detalhando os pontos fortes e fracos do adversário, bolando as melhores
estratégias extremamente concentrados. O jogo começou e realmente foi uma
grande final. Os finalistas mostraram muita vontade, vários lances de raça daqueles
que fazem valer a pena sair de casa para assistir um jogo. Ninguém queria
perder e a torcida aplaudia cada belo lance.
Enfim
tivemos os campeões - tanto das duplas, quanto do individual - e mesmo sendo
uma competição entre amigos, sem grandes premiações, sem atletas profissionais,
sem patrocínio e sem arbitragem, o que não foi faltou emoção. Os competidores
saíram satisfeitos, já querendo marcar a próxima. Na segunda-feira tinha gente logo
cedo na quadra treinando, dizendo que perdeu por vacilo e por isso tinha que
treinar mais para melhorar. Outros, acredito que só aparecerão nas “peladinhas”
ou no dia de jogo, pois muitos não gostam muito desse “negócio de treinar”,
preferem melhorar jogando.
Com
essa experiência pude perceber cinco coisas:
1- Existem
pessoas que gostam de participar, ficam felizes de estar no meio da competição,
mesmo não tendo tanta habilidade. Elas querem se divertir e apreciar um bom
“combate” de perto. E são extremamente importantes para o processo, pois
aumentam os números, acabam se tornando expectadores, ajudam a divulgar e fazem
com que o evento tenha graça, pois os comentários da resenha são os melhores.
2- Pessoas
competitivas são solitárias pois estão obstinados no sucesso, ficam focadas no
resultado e por isso só pensa nisso, não abrindo espaço para outro tipo de
interação que não seja a competição. Elas se preocupam mais com o jogo, por
isso fazem questão de se dedicar, se cobram muito por isso são compenetrados a
ponto de se isolarem dentro de si mesmos.
3- Ser
competitivo não significa ser um vencedor, mas é metade do caminho. Pessoas
competitivas são geralmente esforçadas, dedicadas naquilo que se propõe a
fazer. Vencer depende de diversos fatores, e com certeza o esforço é um deles.
4- Existe
muita gente talentosa, mas sem espirito competitivo. É comum no meio amador
aparecer aquelas pessoas que mesmo sem se dedicar, sem ficar naquela cobrança
pessoal, vencem pessoas extremamente dedicadas. Esses são os talentosos, fazem
algo muito bem feito sem nem precisar fazer muito esforço. Na NBA (Liga
Profissional de Basquete Americana), tem uma frase que sempre aparece:
“Trabalho duro vence talento, desde que talento não trabalhe duro”. Isso
significa que se uma pessoa talentosa não trabalhar duro, pode ser superada por
um esforçado... Mas, se ela trabalhar duro, nunca será superada. E muitos
escolhem não se dedicar para saber onde poderiam chegar. Preferem ficar mesmo
só na diversão, vencendo adversários fáceis ao invés de buscar subir o nível.
5- Pessoas
de espirito competitivo tendem a ser competitivos em todas as áreas da vida. Pessoas
com espirito de diversão tendem a levar tudo na brincadeira. Ai estamos falando
de trabalho, estudo, esportes e outras coisas que possam haver comparações. No
esporte crescemos ouvindo que você se porta fora da quadra do mesmo jeito que
se porta dentro. O esporte tem a capacidade de revelar sua personalidade.
Consegue mostrar se você sabe trabalhar em equipe, se é um vencedor ou um
perdedor, revela até sua honestidade. Por isso, nem todo mundo consegue
permanecer no esporte, pois ele pode mostrar um lado que você não queira
mostrar.
Na maioria das vezes as
pessoas competitivas são fechadas, estão sempre com a “cara fechada” e não são
de muita conversa, mas por outro lado um competidor de verdade busca ser honesto,
leal com os seus companheiros, seus adversários e respeitam regras. Tem características
de buscar a superação pessoal, querem vencer a si mesmo o tempo todo, batendo
os números existentes. E ainda bem que elas existem, pois são elas que mudam os
padrões, batem recordes e fazem com que o impossível se torne possível. O que
seria do mundo sem aqueles que desejam ser reconhecidos com os melhores? Acho
que viveríamos uma vida sem emoção, sem descobertas, sem sonhos e sem alguém para
se torcer mesmo que as vezes contra.
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